sexta-feira, 12 de maio de 2017

Amostras da Ana para adultos


"Cronos. O velho deus grego. O Saturno dos romanos. O Senhor do tempo. Tempo,tempo, tempo. Um senhor tão avaro. Sempre traindo, subtraindo. Diminuindo cada miúdo minuto." (Canteiros de Saturno, 1991)

"Talvez fosse por causa disso que Isadora detectava em si mesma, nesse momento, essa avareza. Mas, no fundo, sabia que não. Não era por aí. Não era esse o tempo que não queria compartilhar. Era algo de outra esfera. Outra órbita. Outro satélite de Saturno. O mais interior de todos. O tempo de que sua vida era tecida. O que ainda lhe restava viver, que nada lhe poderia devolver. Precioso. O que não queria gastar no tráfego nem arrumando gaveta. O que necessitava para pensar, mergulhar em si mesma. Ela tinha o direito de ser dona desses instantes, mandar neles, decidir o que queria fazer com cada um. Cada momento único que a separava da morte, viesse ela quando viesse." (Canteiros de Saturno, 1991)

"- Você (...) é uma artista, como eu. Nós temos que incomodar e trazer alguma coisa nova e bela. Nada é tão belo e novo como a moral. E ela aponta para a verdade. (...) Porque está na base de tudo, é alicerce. E tem muita coisa desagradável que a gente tem que olhar de frente, sem mentir, se quisermos que os tempos sejam melhores (...). Por exemplo, o fato de que nós somos muito violentos e sanguinários. A gente tem a mania de fingir, de dizer que nossa história se fez sem sangue (como se anemia fosse motivo de orgulho), enquanto os nossos vizinhos espanhóis e hispano-americanos foram tão cruéis. É mentira. Fomos tão cruéis quanto eles, só que mais hipócritas, e além de violentos, somos também muito ladrões. (...)

- Você está se referindo à corrupção dos colonizadores, à usurpação feita pelas classes dominantes?

- Não, Lena. Eu estou velho, não tenho mais tempo de mentir. (...) Eu estou falando é da ladroagem geral, mesmo. Todo mundo aqui no Brasil quer enganar o outro, passar a perna (...) Cada um só pensa em si mesmo, ninguém tem a menor noção do direito do outro, do respeito aos outros seres humanos e à vida em geral. Cada um vive como se o mundo inteiro tivesse sido criado para ser seu escravo e sua propriedade." (Tropical sol da liberdade, 1988)

"No caminho, pelo meio do beco que passava nos fundos da casa - nem rua era, mas uma antiga servidão - as pernas vergaram de vez, esfareladas de cupim. E para sempre incapacitado de recriar o mi-ré-mi-ré-mi-si-ré-dó-lá das eternas "Pour Elise", o piano caiu de joelhos no meio da servidão." (Tropical sol da liberdade, 1988)

"A leitura nos faz viajar, (...) nos transporta para outras experiências, outras vivências que não teríamos sem ela. O escritor Alberto Martins sustentava,(...) que, já que a leitura de literatura nos transporta, é fundamental garanti-la para todos, até mesmo por respeito ao inalienável direito de ir e vir, previsto na Constituição. (...) Literatura para o povo, então, e já! (...) Em vez de perdermos tempo discutindo se é importante ler, sejamos pragmáticos e aproveitemos todas as oportunidades para pôr professores, jornalistas e burocratas em contato com bons livros. E com a arte, em geral." (Hospital da Alma, texto publicado em Balaio: Livros e Leituras, 2007)

"Não basta, portanto, ler manuais de instruções, textos fechados, clichês, frases feitas (...), conselhos rasteiros. Esse tipo de leitura só serve para fortalecer obediências cegas, consolidar servidões, reforçar preconceitos. (...) Pode ser extremamente útil aos poderosos, garantindo-lhes sociedades de consumo passivo, seja para comprar qualquer produto, seja para apresentar comportamentos fanáticos em política ou religião, seja para ir à guerra com outros povos ou outras etnias."(Ler e Crescer, palestra publicada em Balaio: Livros e Leituras, 2007)