quarta-feira, 24 de abril de 2019

Nélida Piñon, a homenageada da FLIM 2019

Com 24 livros publicados, muitos deles traduzidos para mais de 30 países, a carioca Nélida Piñon, uma das escritoras brasileiras que mais conquistou renome internacional,  é a homenageada da FLIM 2019, que se realizará em Santa Maria Madalena no fim de semana de 30 de agosto a 01 de setembro.

Nélida Piñon
Nascida em 3 de maio de 1937 no carioquíssimo bairro de Vila Isabel,  e criada na Zona Sul do Rio, Nélida é uma mulher de duas culturas. Seus livros espelham ao mesmo tempo suas origens europeias, como filha e neta de imigrantes que vieram para o Brasil no começo do século 20, e sua alma brasileira, presente em toda a sua literatura. Aliás, é o que a própria autora confirma quando garante que, apesar de viajante compulsiva, "não concebe vida plena fora das fronteiras do Brasil".

Além de vasta, a obra de Nélida Piñon é diversificada em gêneros e temas. São romances, contos, ensaios, crônicas e memórias. Suas narrativas podem tratar de mitos, da violência do Estado, da força das paixões, das relações familiares e de aventuras. Nos enredos que cria, aparecem, por exemplo, os sonhos e dramas de quem parte em busca de outras terras e os daqueles que se recusam a partir; as disputas familiares por herança - uma herança que tanto pode ser dinheiro e imóveis, como no romance A República dos Sonhos, quanto uma camisa manchada de sangue, como no conto A camisa do marido; ou mesmo siimples lembranças, que nas histórias de Nélida aparecem como sinônimo de pertencimento e identidade, como no conto Em busca de Eugênia

Na bela e rústica paisagem das montanhas galegas, a autora tem suas raízes 
Outra presença frequente em sua literatura é a Galícia, terra de seus antepassados. Situada no noroeste da Península Ibérica, a região foi sucessivamente ocupada por celtas, romanos, suevos e visigodos e hoje faz parte da Espanha. A história, as lendas, as paisagens, a música e as comidas galegas, herdadas de todos esses povos, reinam na imaginação da escritora. Conquistada muitos séculos atrás pelo reino de Castela para formar a atual Espanha, na Galícia de hoje professores e escritores lutam para preservar a língua galega – um idioma muito próximo do português, cuja sobrevivência está ameaçada pelo predomínio do castelhano. 

É essa mesma paixão dos galegos por seu idioma que Nélida transfere para o português do Brasil:
“É com esta língua amada que enfrento os nós da criação que pratico na calada da noite. E me dou conta, altaneira e orgulhosa, de que esta língua garante-me o ofício, fez de mim uma escritora. Só me resta, então, no crepúsculo ou no anoitecer, inclinar a cabeça em reverência e agradecer comovida”. (Livro das Horas, ed.  Record, 2014, p. 75)

Veja também: Os livros de Nélida
                        Elegância e ousadia, caviar e feijoada
                        Um pouco de Nélida por ela mesma

Os livros de Nélida


A homenageada da FLIM 2019 estreou na literatura em 1961, aos 24 anos, com o romance Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, cujos temas são o pecado, o perdão e a relação dos mortais com Deus.  Desde então publicou mais oito romances, três livros de memórias, quatro de contos, um de crônicas, quatro de ensaios, dois de discursos e fragmentos e um infanto-juvenil.  A qualidade de sua obra lhe valeu inúmeros prêmios no Brasil e no exterior e a eleição, em 1989, para a Academia Brasileira de Letras, da qual foi a primeira mulher presidente (1996-1997). 

O romance A República dos Sonhos, de 1984, é considerado por muitos críticos a sua obra-prima. Conta a saga da família do imigrante galego Madruga, que se instala no Rio de Janeiro em 1913 disposto a fazer fortuna. O livro perpassa boa parte da história do Brasil no século 20, ao mesmo tempo em que conta as aventuras e desventuras de Madruga, seus filhos e netos. 
No romance Fundador, publicado em 1969, Nélida Piñon põe em cena personagens históricos e ficcionais. Em A Casa da Paixão, de 1972, o tema é o desejo e a iniciação sexual.  Já A Doce Canção de Caetana, de 1987, é um romance de denúncia política. A ação se passa numa cidade do interior, Trindade, na época do chamado “milagre econômico brasileiro”.




O livro infantil: Viagens na imaginação
O único livro infantil de Nélida Piñon é A Roda do Vento, de 1996. Nele, a autora convida seus jovens leitores a alargarem sua visão de mundo através de um mergulho na fantasia.  A ação se passa na mais do que tranquila cidade de Catavento, onde nada de empolgante acontece. É aí que três irmãos – Tarzan, Beijinho e Baguinho - decidem construir um barco para sair navegando em busca do lugar onde nasce o vento. E batizam seu barco imaginário com o nome de Gênia, a tia que, com sua arte da narrativa, sempre os conduz ao mundo da imaginação.


Bibliografia completa

Uma furtiva lágrima (memórias). Rio de Janeiro: Temas e Debates, 2019.
● Filhos da América (ensaios). Rio de Janeiro: Record, 2016.
As matrizes do fabulário íbero-americano (ensaios) (Coord.). São Paulo: Edusp, 2016.
● Livro das Horas (memórias). Rio de Janeiro: Record, 2014.
Coração Andarilho (memórias). Rio de Janeiro: Record, 2009.
Aprendiz de Homero (ensaios). Rio de Janeiro: Record, 2008
Vozes do Deserto (romance). Rio de Janeiro: Record, 2004.
O Presumível Coração da América (discursos). Rio de Janeiro: ABL/Topbooks, 2002.
 Cortejo do Divino e outros Contos Escolhidos (contos). Porto Alegre: L&PM Pocket, 1999.
Até Amanhã, Outra Vez (crônicas). Rio de Janeiro: Record, 1999.
A Roda do Vento (infantojuvenil). São Paulo: Ática, 1996.
O Pão de Cada Dia (fragmentos). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
A Doce Canção de Caetana (romance). Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987.
A República dos Sonhos (romance). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984; Edição revista, Rio de Janeiro: Record, 1998. Edição comemorativa: Rio de Janeiro: Record, 2014.
O Calor das Coisas (contos). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1980. Edição revista: Rio de Janeiro: Record, 1998.
A Força do Destino (romance). Rio de Janeiro: Editora Record, 1977. Edição revista: Rio de Janeiro: Record, 1998.
Tebas do Meu Coração (romance). Rio de Janeiro: José Olympio, 1974. Edição revista: Rio de Janeiro: Record, 1998.
Sala de Armas (contos). Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1973. Edição revista, Rio de Janeiro, Record, 1998.
A Casa da Paixão (romance). Rio de Janeiro: Editora Sabiá, 1972. Edição revista, Rio de Janeiro, Record, 1998.
Fundador (romance). Rio de Janeiro: José Álvaro Editor, 1969. Edição revista: Rio de Janeiro: Record, 1998.
Tempo das Frutas (contos). Rio de Janeiro: José Álvaro Editor, 1966. Edição revista, Rio de Janeiro: Record, 1998.
Madeira Feita Cruz (romance). Rio de Janeiro: Edições GRD, 1963.
Guia-mapa de Gabriel Arcanjo (romance). Rio de Janeiro: Edições GRD, 1961.

Publicado no exterior:
La Sedución de la Memoria (ensaios). México, 2006.

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Elegância e ousadia, caviar e feijoada


Nélida Piñon tem um temperamento aventureiro, exaltado e ao mesmo tempo refinado, que se reflete na linguagem de seus livros. É uma linguagem elegante, de vocabulário rico, mas que não tem pudor de, volta e meia, ignorar as regras da gramática e desafiar a sintaxe.

 

A imaginação da Nélida leitora "viaja" com obras como o Dom Quixote e sua busca de moinhos de vento com que lutar;  a trágica história de amor  de Tristão e Isolda;  as conquistas dos navegantes portugueses  narradas por Camões em Os Lusíadas; as aventuras dos Três Mosqueteiros do francês Alexandre Dumas;  e com os feitos de deuses e heróis da mitologia e da literatura grega.

Estátua de Machado na ABL
Esse gosto pelas narrativas épicas e míticas convive com a paixão pela literatura realista do brasileiro Machado de Assis. Uma paixão tão intensa que chega às raias da veneração: Nélida confessa que sempre faz “uma oração pelo Brasil” ao passar pela estátua do velho Machado que adorna a entrada do prédio da Academia Brasileira de Letras - instituição da qual, aliás, ela foi a primeira mulher presidente. 

Richard Wagner, uma paixão
Tais paixões aparecem, de uma forma ou de outra, nos livros da escritora Nélida. Assim como o gosto pela música, sobretudo as óperas de Wagner e Mozart e as obras do brasileiro Villa-Lobos. Importante também é a paixão pela comida. Sim, a comida. Os suculentos pratos galegos e portugueses, como os cozidos e os diferentes preparos do polvo e do bacalhau, surgem nas mesas dos personagens de Nélida e em suas memórias da infância e de viagens. E se harmonizam perfeitamente com a lembrança da torradinha com caviar saboreada de olhos fechados numa delicatessen de Nova Iorque ou os pratos brasileiríssimos, como o leitão à pururuca e as lautas feijoadas com amigos em seu apartamento no Rio. E como, na imaginação dos escritores tudo é possível, até num lanchinho de “café, guaraná e biscoito de polvilho” que ela sonha um dia oferecer “a todos os leitores” de seus livros.
“Não conheço os leitores e nem sei onde vivem no território brasileiro. Mas penso um dia convidá-los a serem parceiros, sócios, aliados das minhas aventuras narrativas. A me conhecerem pessoalmente, trazendo debaixo do braço algum romance de Machado de Assis. E que vejam como é a aparência de quem se habituou a registrar os enredos que também eles viveram junto com suas famílias.” (Livro das Horas, ed. Record, 2014)
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                         Um pouco de Nélida por ela mesma


Um pouco de Nélida por ela mesma


Os trechos a seguir foram todos colhidos no Livro das Horas, um volume de memórias da autora, publicado em 2014 pela editora Record.



“Ainda que arrote grandeza, engrosso, como os demais, o rol da insensatez coletiva, perturbo a paz da cidade, consumo mil litros de água por mês.” (p. 94)
 “A cada dia aprendo a amar. A família, os amigos, a língua, as instâncias da vida e da arte. Tudo que ausculto e responde ao chamado. O que arfa, respira e acolhe-me sem eu haver pedido.” (p. 18)



Sobre escritores que ama
“Sou grata a estes autores vinculados ao meu alvoroço literário. Graças a eles misturo Cervantes e Karl May, o escritor alemão. E por que não? E que diferença há entre eles, se ambos despertaram em mim o apetite pelas peripécias, pela urdidura que conduz ao âmago da narrativa? Embora díspares no que diz respeito à grandeza, os segredos e os prantos os igualam. Na companhia deles, divirto-me. Cada qual me conduziu ao outro lado de uma fronteira que inexistia no início da leitura.
Viajantes da alma humana, estes senhores das lorotas guardam intactas em sua essência as ações humanas, o inabalável instinto das aventuras. (...)  Considero-os feiticeiros que teceram para os personagens enredos que não ousaram eles próprios viver.”  (p. 37/38)

Sobre a morte
“Desfaço aos poucos as ilusões com que afago o ego e deixo aberta a porta da casa a fim de facilitar o ingresso da dama com foice na mão. (...) Mas enquanto essa dama não chega, concedendo-me quem sabe anos, dou-me ao luxo de desperdiçar o tempo que me resta. Sem perceber que, conquanto aparente ser a única proprietária deste tempo, fabrico velozmente a própria morte.” (p. 94)

Sobre Deus
 “Nem Deus é poupado de ouvir o que os homens Lhe dizem com o propósito de emudecê-lo. A sorte é que Deus não escuta os homens, desinteressa-Se das suas aflições e tolices, de suas questões comuns, como pagar contas, arrumar um amor, emprego, saúde, e pedidos de glória.” ( p. 102)

Sobre o século em que vivemos
“Mal começou e o século XXI já me parece envelhecido. Amaldiçoa-nos com seu ar de falso vencedor, cujo teatro do terror, amparado na limpeza étnica, religiosa e ideológica, ameaça-nos com expurgos, genocídios, crueldades inauditas.” (p. 112)

Sobre cultura
“Há que dar um basta à crença de ser a cultura privilégio dos cultos que mantêm no gueto qualquer obsessão criativa ou interpretativa contrária à sua. A cultura, em que patamar esteja, onde se esconda, nas cavernas ou nos subterrâneos, reflete a avassaladora alma de um povo.” (p. 134)


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