segunda-feira, 28 de abril de 2014

Gullar rebelde


Aos 24 anos, já morando no Rio de Janeiro e trabalhando como redator de jornal, Ferreira Gullar despertou atenção com o livro A luta corporal. Nele, apresentava desde poemas intimistas e líricos a experimentações ousadas para a época, como a invenção de palavras e a fragmentação do texto na página. Isso o aproximou dos paulistas Haroldo e Augusto de Campos, praticantes e teóricos da chamada poesia concreta, um tipo de poesia em que as palavras são arranjadas de forma visual e o suporte do poema tanto pode ser um livro quanto outro qualquer objeto. Mas, logo depois, insatisfeito com o que considerava excesso de autonomia da forma sobre a expressão de sentimentos, juntou-se a um grupo de artistas e jornalistas para fundar o movimento neoconcreto, que agitou as artes plásticas brasileiras nos anos 50 e 60 e projetou artistas como Lygia Clark e Helio Oiticica.
Pouco depois, Gullar trocou a sofisticação da arte de vanguarda pela ação política. Após o golpe militar de 1964, seus textos passaram, mais do que antes, a ter claras preocupações sociais e sua linguagem se tornou mais popular. Recorreu à literatura de cordel para tratar das carências do Nordeste e ajudou a fundar o grupo de teatro Opinião, para o qual escreveu peças que tratavam, geralmente com muita música e bom-humor, das demandas das populações mais pobres das áreas rurais e dos subúrbios.

Em 1969, após a assinatura do AI-5, que sacramentou a instalação da ditadura no país, Gullar foi preso, junto com um grupo que incluía Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em 1971, decidiu se exilar, primeiro em Moscou e depois no Chile, Peru e, finalmente, Argentina. Voltou ao Brasil em 1977. Foi quando o amigo Dias Gomes arranjou-lhe trabalho no núcleo de dramaturgia da Rede Globo. Ali ele escreveu as minisséries Araponga (com Dias Gomes) e As noivas de Copacabana (com Dias Gomes e Marcílio Moraes); o episódio Insensato coração, da Quarta Nobre; diversos episódios dos seriados Carga Pesada e Obrigado doutor; e adaptações de peças de outros autores para a série Aplauso.

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