segunda-feira, 28 de abril de 2014

Um Gullar para todos os gostos

Ferreira Gullar, o escritor homenageado da FLIM 2014, é um homem múltiplo. Passeia por diferentes formatos e linguagens com desenvoltura. Celebrado como um dos principais poetas brasileiros vivos, também é autor de livros infantojuvenis, roteirista de TV, colunista de jornal, dramaturgo, tradutor, ensaísta, contista e crítico de artes plásticas.

Sua obra se espalha por mais de 40 livros publicados. O mais festejado pela crítica talvez seja o Poema Sujo, longo poema escrito em 1976, numa linguagem que às vezes comove pelo lirismo, às vezes choca pela crueza quase obscena – mas é sempre emocionante e reveladora pela força de sua humanidade.  Um pequeno trecho:
(...) Mas que é o corpo? /Meu corpo feito de carne e de osso/Esse osso que não vejo/maxilares, costelas/flexível armação que me sustenta no espaço/que não me deixa desabar como um saco/vazio/que guarda as vísceras todas/funcionando/como retortas e tubos/fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento/e as palavras/ e as mentiras/e os carinhos mais doces mais sacanas/mais sentidos/para explodir uma galáxia de leite/no centro de tuas coxas no fundo/de tua noite ávida (...) 

Nascido em São Luiz do Maranhão em 10/09/1930, José Ribamar Ferreira (o Gullar foi adotado aos 18 anos e é forma aportuguesada de Goulart, sobrenome materno) é um mestre das palavras. Usa-as para falar da beleza e das dores humanas, para criticar as injustiças da vida social, para discutir a função da arte, para entreter, fazer rir e fazer pensar.  Como neste poema:

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço



O poema, senhores,
não fede
nem cheira

Seus trabalhos mais populares, mas nem sempre associados a seu nome, são episódios do seriado Carga Pesada e as minisséries Araponga e As noivas de Copacabana, que escreveu para a TV Globo em parceria com o amigo Dias Gomes e outros autores. Foi também em parceria que escreveu peças teatrais de sucesso, entre elas Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, com Oduvaldo Viana Filho, e Dr. Getúlio, sua vida e sua glória, com Dias Gomes.
Aos 84 anos, continua a ser um trabalhador incansável. Acaba de fazer uma nova tradução, modernizada e mais coloquial, do livro “O pequeno príncipe”, do francês Saint-Exupéry; faz desenhos, pinturas e colagens só vistos por quem visita seu apartamento em Copacabana; publica todos os domingos uma coluna no jornal Folha de S.Paulo, onde fala de política, poesia, artes e miudezas do cotidiano;  viaja pelo Brasil fazendo palestras e recebendo homenagens; e ainda arranja tempo para cuidar de sua gata de estimação, a Gatinha, musa inspiradora de uma crônica recente, na qual confessa que queria ser um gato, porque  “o gato não sabe que é mortal; logo, é imortal”.

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