quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O dia em que Dercy fez Clarice rir

A biógrafa de Clarice conta, em texto especialmente produzido para este blog, o surpreendente encontro entre a homenageada da FLIM 2012 e a estrela madalenense.     

                                 

                                 III FLIM: O Encontro de Clarice Lispector e Dercy Gonçalves

                                                                                    Por Teresa Montero

Dercy: "Eu invento a vida e deixo a literatura para os intelectuais"

Clarice: "Literatura para mim é o modo como os outros chamam o que nós, escritores, fazemos."   
       A III FLIM – Festa Literária de Santa Maria Madalena é uma oportunidade de leitores, escritores e artistas celebrarem a leitura numa cidade que é um patrimônio do Brasil. Cercada pela exuberância da Mata Atlântica, a cidade guarda outra riqueza, a história de uma das maiores artistas brasileiras: Dercy Gonçalves.   
 
    Ao homenagear a escritora Clarice Lispector em sua terceira edição, a FLIM promove o encontro entre duas artistas brasileiras que se encontraram nos palcos da vida sem nunca terem se falado.

    O primeiro encontro deu-se no Rio de Janeiro, no Teatro Rival, nos anos 1970.  Certo dia, Clarice, um pouco encabulada, ligou para a velha amiga Nélida Helena de Meira Gama pedindo-lhe se gostaria de ir ao show de Dercy em sua companhia. Clarice tinha pudor em revelar seu desejo de assistir a um espetáculo, diriam alguns naquela época, inapropriado para uma senhora. Nélida atendeu ao pedido da amiga e revelou-me, num depoimento para a biografia Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector (Rocco, 1999), que aquele dia tinha sido a “aurora boreal de Clarice Lispector”.  Durante o espetáculo, Clarice se divertia tanto a ponto de "sapatear de felicidade", relatou-me Nélida.  Ria, ria muito, levantava os braços, dava cotoveladas. Jamais Nélida Helena vira Clarice tão feliz.

     O segundo encontro ocorreu em 25 de outubro de 1994. Clarice já não estava mais entre nós, mas Dercy comemorava, naquele ano, seu aniversário de 87 anos. A TV Globo exibiu o Caso Especial 'Feliz Aniversário', adaptação do conto homônimo de Clarice Lispector, publicado em Laços de Família. Dercy interpretou Anita, uma senhora de 89 anos que celebra o aniversário cercada por noras e filhos. O conto mostra um grande desconforto entre os membros daquela família no dia da festa, observados pela mãe que, calada, pensava “como pudera dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade.” Anita demonstra sua insatisfação e expõe a sua cólera cuspindo no chão. Diante do espanto dos convidados ela pede: “Que vovozinha, que nada! Explodiu amarga a aniversariante. – Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! Me dá um copo de vinho, Dorothy! – ordenou.” O ‘Feliz Aniversário’ de Clarice Lispector revela a dureza dos laços familiares muitas vezes atados por situações constrangedoras em que a família se encontra diante do bolo aceso por obrigação.

     É inevitável não provocar um paralelo entre Dercy e Clarice. Dercy questionou a ordem instituída, desconstruiu formatos da arte de interpretar, usou o palavrão e o cuspe em cena mostrando o avesso da natureza humana, risível e grotesca. Em seus “shows memorialistas’, um desses que Clarice assistiu, Dercy desfiava de forma confessional a precariedade da vida e ria de si mesma. Dercy  é única!

     A trajetória literária de Clarice desconcertou críticos e leitores, incapazes de classificá-la porque ela escapou de todas as definições. Clarice inaugurou um novo lugar na literatura brasileira vaticinado pelo crítico Alceu Amoroso Lima: “Ninguém escreve como Clarice Lispector. Clarice Lispector escreve como ninguém.”

     A FLIM – Festa Literária de Santa Maria Madalena merece todos os aplausos, não só por promover a leitura no Brasil como também por possibilitar o reencontro entre Clarice e Dercy em solo madalenense.  

    BRAVO! BRAVÍSSIMO!

  
                                                                                                                        Agosto de 2012
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 Teresa Montero é professora de Literatura Brasileira e História do Teatro Brasileiro. Autora de ‘Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector’ (Rocco, 1999). Idealizadora do projeto “Caminhos da Arte no Rio de Janeiro – O Rio de Clarice”. Organizadora das obras de Clarice Lispector para a editora Rocco

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